Lince ibérico: Êxito da reintrodução em Portugal depende da abundância de coelhos, diz investigador

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linceO êxito da reintrodução do lince ibérico em Portugal, de onde desapareceu há décadas, dependerá da existência de coelhos em número suficiente nas zonas onde forem libertados, longe da pressão humana, considera uma investigadora portuguesa.

Márcia Barbosa, da Universidade de Évora, disse hoje à Lusa que o lince pode sobreviver comendo alguns pequenos mamíferos, como ratos e outros roedores, mas não se reproduz se não houver coelhos em número suficiente.

“Acho bem que se reintroduzam os linces em zonas onde as populações de coelhos naturais sejam suficientes para os manter e não seja preciso alimentá-los artificialmente”, afirmou.

Márcia Barbosa participou recentemente num estudo luso-espanhol, com colegas da Universidade de Málaga e da Estação Biológica de Doñana, que propunha uma nova estratégia para salvar o lince ibérico que assentasse na recuperação da diversidade genética do coelho, sua principal presa, e do seu habitat natural.

A investigadora falou à Lusa no dia em que chega ao Centro Nacional de Reprodução de Silves, vindo de Espanha, o primeiro de 16 linces que vão ser reintroduzidos em Portugal para tentar evitar a extinção da espécie, exclusiva da Península Ibérica.

O lince começou por estar espalhado por mais de metade da península ibérica, mas a sua presença foi-se reduzindo, primeiro pela pressão humana, que o levou a afastar-se dos centros urbanos, e depois devido à escassez de coelhos.

Já em menor número devido à actividade humana, o lince ficou ainda mais limitado devido às epidemias que atingiram as populações de coelhos da península ibérica, primeiro a mixomatose, nos anos 1950, e mais tarde a doença hemorrágica vírica.

“Os coelhos estão a recuperar lentamente dessas doenças, mas o lince, como é uma espécie de reprodução muito lenta, não tem conseguido acompanhar a reprodução dos coelhos à mesma velocidade”, referiu a investigadora.

Estima-se que só existam cerca de 100 exemplares em toda a Península Ibérica, concentrados em dois núcleos, um na Reserva de Doñana (Andaluzia) e outro mais a norte, na Serra Morena.

Desde a década de 1980 que não existem populações estáveis de lince em Portugal, embora no ano 2000 tenham sido recolhidos dejectos de lince que comprovaram a sua presença em território nacional e desde aí se tenham registado alguns avistamentos da espécie em locais próximos da fronteira com Espanha.

“Não sabemos se não existe actualmente algum lince em Portugal. Poderão existir, mas não como uma população estável. É esse repovoamento que pretendemos fazer”, disse à Lusa a coordenadora executiva para o Plano de Acção do lince, Lurdes Carvalho.

O principal objectivo do plano é conseguir que os 16 linces a reintroduzir em Portugal até Novembro possam mais tarde ser libertados na natureza e contribuir para a conservação da espécie, ameaçada há décadas.

A serra da Malcata e o sul de Portugal são duas regiões do país onde se pretende fomentar a reprodução do coelho bravo, entre outras medidas, para poderem acolher o lince em liberdade, mas no sul a situação é mais difícil por muitos dos terrenos serem de privados.

O lince ibérico (Lynx pardinus) é considerado o felino mais ameaçado do mundo e, de acordo com o último censo nacional da espécie, está em fase de pré-extinção em Portugal.

CM/VP.

Lusa/fim

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