Militar de Beja “agarra” 12º ano para seguir carreira
Beja, 01 Dez (Lusa) – Com “vontade” de seguir carreira militar e “de olho” numa patente superior, o 1º Cabo Nuno Silva, 29 anos, “agarrou” uma “nova oportunidade” para obter o 12º ano e tentar candidatar-se à Escola de Sargentos do Exército.
Quarteleiro no Regimento de Infantaria nº 3 (RI3) em Beja, onde guarda e faz manutenção de material de guerra, o militar, que, até meados de Setembro, só tinha o 10º ano de escolaridade, o que o impedia de progredir na carreira, termina o último contrato com o Exército, em Março do próximo ano.
“Tenho que sair porque atingi o limite de nove anos a contrato e o Exército Português não tem quadro de praças”, contou Nuno Silva à Lusa, explicando que só com uma patente superior, como a de Sargento, poderá seguir carreira militar.
Aos 19 anos, quando frequentava o 11º ano, Nuno, com “vontade de servir o país” e “influenciado pelas histórias e fotografias” da experiência militar do pai, que foi pára-quedista durante quatro anos, dois dos quais no Ultramar, trocou a escola pelo Exército.
Após oito anos de vida militar e três missões no estrangeiro, duas em Timor e uma na Bósnia-Herzegovina, Nuno, “pressionado” pelo início do último ano de contrato, percebeu que tinha de obter “com urgência” o 12º ano para cumprir a sua vontade.
“Quando fiquei a saber que podia obter o 12º ano através do processo de RVCC” (Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências) do programa Novas Oportunidades, “agarrei logo a oportunidade com ‘unhas e dentes'”, contou Nuno, que reside em Moura (Beja) com a esposa e considera-se alentejano, apesar de ter nascido na cidade alemã de Quakenbrück, em 1979.
“Graças à iniciativa e ao incentivo” do comandante do RI3, o Coronel Fernando Ferreira, que assinou um acordo com o Centro Novas Oportunidades do Centro de Formação Profissional de Beja para melhorar as qualificações de militares e civis ao serviço do regimento, Nuno inscreveu-se no processo de RVCC, que começou em meados de Março deste ano.
Durante sete meses de “muito trabalho” e “sacrifício”, Nuno conseguiu validar e certificar 62 de um total de 88 competências-chave, mais 20 do que o mínimo obrigatório (42) e o equivalente a uma classificação de Bom.
Depois de ter “enfrentado” o júri final, a 12 de Setembro, Nuno obteve a certificação de nível secundário com equivalência ao 12º ano, a habilitação mínima para poder candidatar-se à Escola de Sargentos do Exército.
Em Março de 2009, quando terminar o contrato, Nuno vai sair do Exército e “agarrar-se a qualquer coisa”, talvez trabalhar com o sogro, que é agricultor.
“Mas não vou desistir do Exército. Quero continuar a carreira militar e progredir”, disse Nuno, garantindo que vai candidatar-se ao Curso de Formação de Sargentos do Exército “logo que abrir o próximo concurso de admissão”.
“Se for admitido e tudo correr bem, quando terminar o curso fico habilitado a ingressar na categoria de Sargentos dos quadros permanentes do Exército e vou poder seguir carreira militar”, admitiu Nuno, frisando que “gostaria de voltar a trabalhar na arrecadação de material de guerra do RI3, mas como Sargento”.
O “maior desafio” do processo de RVCC “foi contar a minha história de vida”, confessou o militar, frisando que teve de “recordar momentos difíceis”, como a perda de dois camaradas, um na segunda missão em Timor, em 2002, e outro na missão na Bósnia, em 2004.
“Foi difícil mexer nalguns traumas, mas ajudou-me muito falar, desabafar, partilhar histórias e sentimentos que tinha guardado para mim. Fiquei mais aliviado”, salientou.
Além de “aliviado”, Nuno, confessou-se “surpreendido” com os resultados do processo de RVCC, que considerou “uma experiência muito boa”.
“Estive nove anos sem estudar. Esqueci-me de muitas coisas. Mas o processo de RVCC fez-me activar muitos conhecimentos. Sinto-me diferente, mais culto”, confessou, frisando que “aprendeu” a “dar valor” a conhecimentos e competências que adquiriu ao longo da vida, “mesmo fora da escola, no dia-a-dia e no trabalho por exemplo”, e que “antes não valorizava” e nem se “apercebia que tinha”.
“Todas as pessoas que não acabaram o ensino básico ou o secundário devem aproveitar esta nova oportunidade. Arranjar trabalho já é difícil e sem habilitações ainda é pior”, aconselhou Nuno, rematando: “Se queremos ser mais alguém na vida, devemos, pelo menos, tentar”.
*** Luís Miguel Lourenço, agência Lusa ***
Lusa/Tudoben